ESTA PÁGINA APRESENTA LEITURAS COMPLEMENTARES
EM DIÁLOGO COM AS PROVOCAÇÕES E PROPOSIÇÕES
DO LIVRO "A CONSONÂNCIA SILENCIOSA"
A inteligência artificial, integralidade e expressão artística:
reflexões fundamentais
João Valter Ferreira Filho
Santo Tomás de Aquino[1] (1225-1274) definia a inteligência como a capacidade de “ler por dentro” (intus legere) as coisas que nos são apresentadas, na busca por descobrir sua verdade.
O percurso que ele descreve é, na verdade, bastante instigante e procura elucidar justamente o caminho percorrido pelo ser humano ao tentar perceber, assimilar e compreender tudo o que existe fora de si e que vai sendo internalizado em sua trajetória de vida.
A primeira instância desse processo é a percepção sensível. Todas as coisas que estão fora de nós são percebidas por meio dos cinco sentidos externos: visão, paladar, olfato, audição e tato. Nosso corpo, então, entra em contato com o mundo por meio desses sentidos, eles são o limiar entre o exterior e o interior. É curioso pensar, portanto, que o mundo material — qualquer coisa dele faça parte — só pode chegar até nós sob alguma dessas cinco formas: imagem, gosto, cheiro, som ou contato físico!
A partir do momento da percepção sensível, Tomás de Aquino afirma que há uma série de processos pelos quais os dados que recebemos dos sentidos vão tomando forma no interior da pessoa, passando pelas “potências da alma” ou “faculdades” — sensus comunis, cogitativa, imaginação, memória e afetividade — que, sucessivamente, vão elaborando a compreensão em direção à intelecção/inteligência e, ainda, à adesão ou repulsão ao objeto em questão, que se dá por meio da vontade[2].
Assumindo o raciocínio de Tomás de Aquino, portanto, somos levados a concluir que, filosoficamente, não seria possível haver inteligência fora da mente. Pelo menos não essa inteligência que ele descreve, ou seja, uma compreensão da verdade de alguma coisa a partir de uma série de elaborações interiores.
O que seria, então, com referência a essa leitura da antropologia escolástica, a chamada Inteligência Artificial?
Vejam, em princípio o que a IA realiza é aquilo que a computação desde sempre realizou: o processamento de dados. Em volume inimaginável e em velocidade inimaginável, como sempre os computadores conseguiram fazer (pelo menos, aos nossos olhos de leigos nessa área).
A diferença do que acontecia na “computação clássica” (não sei se esse seria um termo técnico, mas vou adotá-lo aqui) e aquilo que nos últimos anos passou a ser popularizado como IA, está na maneira como esses dados são intercruzados e devolvidos a nós.
Por meio de processos cada vez mais complexos e sofisticados, os computadores passaram a tratar os dados que chegam a eles em níveis de detalhamento nunca antes presenciados. Mas isso não é tudo: acontece que esses dados agora, além de serem “destrinchados” minuciosamente, também estão sendo elaborados em camadas que podem ser comparadas àquelas categorias de “potências da alma” delineadas por Tomás de Aquino. O computador imagina coisas, interrelaciona a partir de memórias, recombina essas coisas, chega a conclusões e ideias. E aí, depois de tudo isso, nos entrega todo o resultado dessas quantidades incontáveis de processamentos em formato acessível e até agradável: imagens, vídeos, slides, gráficos, canções, textos, tabelas etc. Isso tudo em segundos!
Então, não se trata exatamente de uma Inteligência Artificial, somente. Trata-se de algo que pode ser melhor descrito como uma espécie de “Mente Artificial” (MA)! Uma mente que realiza processos similares àqueles que Tomás de Aquino descrevia quanto à mente humana: recebe dados, os elabora em diferentes camadas e constrói compreensões a partir dessas elaborações.
É claro que isso iria conquistar o mundo! Em uma época em que não temos mais tempo (ou disposição) para ler, para assistir aulas, para nos debruçar sobre conteúdos mais complexos, parece ser compreensível que o ser humano passe a “terceirizar” o pensamento.
Mais que isso: sou levado a acreditar que fazer uso da IA (da MA, na verdade) pode dar ao sujeito uma espécie de “sensação super-humana”, ou seja, a impressão de que você mesmo realizou algo extraordinário, porque conseguiu “provocar” o computador — através de prompts e comandos — a realizar algo que, muitas vezes, parece ser exatamente o que estava em sua cabeça, algo que você estava pensando “mais ou menos”, porém não conseguia sistematizar ou expressar adequadamente (e tão rápido!).
Eis o encantamento de tudo! Depois que o computador realiza a parte pesada do processo, ele ainda nos entrega tudo bem bonitinho, organizado, e nos diz, caridosamente: “assine embaixo, eu não ligo”.
É difícil não se render a algo assim!
Tecnicamente, nós nunca seremos capazes de fazer frente a essa grande Mente Artificial. Porque nossos sentidos, nossa capacidade de processamento e nosso tempo são limitados. Ela, a MI, irá sempre conseguir lidar com uma quantidade de dados indefinidamente maior que aquela que nossos sentidos conseguem trazer para dentro de nossa mente. Ela também será sempre indefinidamente mais rápida que nossos pensamentos, indefinidamente mais eficaz em imaginar possibilidades, caminhos, soluções etc.
No campo da arte, toda essa facilidade tem virado uma série de coisas de cabeça para baixo.
Por um lado, há certos tipos de produção criativa que já não eram mesmo muito sofisticadas e que foram sumariamente substituídas, e sem impacto estético algum. Esse é o caso dos jingles de campanha política ou de muitas daquelas telas “abstratas” que comumente encontramos em recepções de consultórios médicos e de escritórios “chiques”.
Esses são exemplos de produtos que, já há muito tempo, circulavam em uma categoria de “quase-arte”, resultado do trabalho de pessoas que tinham certas habilidades técnicas, mas que, na maioria das vezes, não se preocupavam em dar peso estético ao que estavam produzindo, até mesmo porque isso não era esperado naquele contexto. Bem, esse pessoal foi substituído pela IA, com toda certeza.
Outros processos, entretanto, apresentam uma avaliação mais complexa e delicada.
Querem ver?
Já há muitas décadas músicos utilizam os “ritmos eletrônicos” em teclados para tocar em serestas, cultos, missas, apresentações musicais e até mesmo em grandes shows. Em um primeiro momento, na década de 1980, houve até um estranhamento por parte de alguns críticos, mas logo grande parte das pessoas se rendeu diante da praticidade desse recurso. E tudo foi se normalizando. Mas olhem só: esse é também um uso de “músicos artificiais”, programados para simplesmente seguir a cifra tocada e fazer viradas de bateria e frases acionadas ao aperto de um botão. Uma banda inteira substituída por “robozinhos dentro de um teclado”. E como avaliamos isso? Bem, hoje já consideramos normal, corriqueiro, útil e necessário até, em determinados contextos.
Pois muito bem, no contexto da produção de estúdio, a IA elevou esse procedimento dos teclados eletrônicos a patamares simplesmente extraordinários. Por meio de prompts e comandos, um produtor musical pode criar linhas de baixo, levadas de bateria, riffs de guitarra, acompanhamentos e solos realmente originais, totalmente personalizados e com timbres reais. Sem tocar, apenas programando. Além disso, ele também escrever o texto da música e deixar o computador criar a melodia, elaborar as vozes auxiliares, backing vocais etc. Podemos até “alugar” o timbre de voz de cantores famosos e fazer com que as novas canções sejam cantadas por essas pessoas, com vozes licenciadas, tudo dentro da lei e de maneira simplesmente perfeita no aspecto técnico.
E o que pensar do caso das “fazendas musicais”? Uma pessoa “cria” uma música do nada, inteiramente por meio de inteligência artificial, lança nas plataformas digitais e depois contrata “fazendeiros” que possuem salões lotados de celulares que vão acessar, também por meio de prompts, aquela canção que foi lançada. Os celulares (somente eles, sem ninguém os operando) ficam “escutando” a música ali, horas e horas, infinitas vezes, gerando engajamento, views, curtidas, likes! Uma música composta por ninguém é escutada milhares de vezes por ninguém... mas gera dinheiro para alguém!
E onde fica o ser humano nisso tudo?
A verdade é que não temos resposta ainda. Estamos no meio do turbilhão, tentando entender o fenômeno enquanto ele acontece e, mais ainda, enquanto ele nos envolve, nos arrasta. E nos encanta!
Mas no meio de tudo isso, há um aspecto em especial que podemos considerar e que pode nos ajudar a fundamentar nossos posicionamentos.
Novamente partindo das proposições de Tomás de Aquino, a inteligência, em si mesma, a rigor, jamais poderia ser partilhada. O que alguém consegue compartilhar, depois de cada processo de intelecção, são novos dados. Em outras palavras: o diálogo com outra inteligência não tem o poder de nos fazer reviver todos os processos interiores que nela ocorreram. O que esse diálogo nos traz são novos dados, que, inevitavelmente, precisarão ser trabalhados por nossa própria inteligência. Como se trata de uma realidade interior, a inteligência, em si mesma, é algo intransferível, Sendo assim, não há mesmo como a IA substituir a “Inteligência Natural” absolutamente.
O que acontece, na prática, é que os produtos ofertados pelas mentes artificiais têm substituído produtos que, até bem pouco tempo atrás, só poderiam ser gerados por mentes humanas.
Parece-me essencial, nessa discussão toda, que saibamos distinguir o valor da arte, então, para além da valoração do produto artístico. Em arte, a obra é um “ente estético” que tem como suporte físico um produto, mas que não se resume a ele.
Sei que é difícil pensar assim às vezes. Mas procure se lembrar de algum momento em que você realmente se sentiu tocado por uma obra de arte: uma canção, um quadro, uma coreografia, um filme. A comoção — o “mover-se com” — daquele momento certamente foi algo muito maior que o “objeto” em si mesmo que se apresentou à sua percepção.
Isso nos leva a pensar que há níveis de existência interior que nunca poderão ser realmente substituídos por algo artificial.
A consciência individual, por exemplo.
Assim, mesmo para o caso de quem se encanta com a possibilidade de parecer ter sido um “super-humano” quando usou a IA em alguma tarefa, sua consciência individual ainda pode reter a certeza de que, na verdade, não realizou tudo aquilo.
E talvez nesse aspecto a arte acabe se tornando uma espécie de salvaguarda da humanidade: se a compreendemos como um encontro entre consciências.
Os algoritmos calculam padrões, realizam elaborações realmente extraordinárias e entregam resultados esteticamente agradáveis. Entretanto, essencialmente, esses produtos são desprovidos de intenção ou afeto em sua origem — muito embora possam provocar reações de intencionalidade e afetividade em sua recepção.
A verdadeira criação artística, no entanto, exige, desde a origem, a presença de um sujeito que sente, padece e escolhe. Essa obra, então, carrega a memória vital, a dor, a esperança e a finitude de quem a produziu.
Isso nos leva a perceber que a arte autêntica é bem mais que apenas um produto visual ou sonoro (ou olfativo, degustativo, tátil); ela é um vestígio vivo do espírito; é o registro de um ser humano tentando traduzir o invisível de sua existência para tocar o invisível da existência do outro.
É precisamente nesse ponto que a consciência individual — voz interior insistente e sempre presente, que pode refletir, em grande medida, a própria voz de Deus em nossos corações — se apresenta como um diferencial por excelência entre a mente humana e a mente artificial. Os produtos podem até se confundir, os resultados artificiais podem até ser mais agradáveis ou “bem acabados” que os resultados naturais. Mas quando se tratar de consciência interior, não há artifícios aos quais se recorrer: só o que resta é a presença natural e o encontro natural das pessoas naturais.
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[1] A arquitetura do pensamento proposta por Tomás de Aquino encontra-se, sobretudo, em sua obra Suma Teológica. Mas é importante saber que toda essa sistematização já é também resultado de uma série de formulações que ele realizou a partir das ideias de filósofos anteriores, como Aristóteles, Avicena, dentre outros.
[2] Para uma compreensão mais detalhada a respeito de cada uma dessas potências e sobre como suas dinâmicas se envolvem no processo de formação musical, o capítulo V do livro A Consonância Silenciosa: uma outra formação musical rumo à integralidade (Ferreira Filho, 2026).